Muitos sul-africanos brancos recrutados no periodo do apartheid para lutar em
Angola, apoiando a Unita na guerra contra o Governo do MPLA consideram ter
lutado “do lado errado da história”. Hoje mostram-se arrependidos. Dizem ter
passado momentos dificeis. No teatro de operações, de acordo com depoimentos
tornados públicos nem tudo foi fácil, como à partida se poderia imaginar. Lutaram
porque lhes disseram que deveriam acabar com o comunismo. Foram, dizem muitos
dos que agora dão a cara, momentos dramáticos e por vezes nostálgicos.
Tive acesso a um documento que foi publicado recentemente na África do Sul
que inclui uma série de memórias auto-publicadas. Há também alguns
documentários e filmes de curta metragem. Um deles, denominado “Meu Coração nas
Trevas” e que mostra as atrocidades cometidas pelo movimento de Jonas Savimbi, foi
premiado internacionalmente. O seu realizador Marius Van Niekerk considera que
o cinema é um meio importante, capaz de aumentar a consciência das pessoas
sobre essa intervenção do regime do apartheid, cuja preocupação na altura era
“afastar o espectro do comunismo que se agigantava em países como Moçambique e
Angola” e que era tido como um perigo para a África do Sul.
Os sul africanos que participaram na Guerra em Angola ao lado da Unita
aparecem agora a conceder entrevistas aos jornais locais, relatando as suas
experiências, segundo eles negativas, porque “ainda sentimos hoje, volvidos
estes anos todos, os traumas que a guerra provocou em nós”.
Um dos que esteve contra a intervenção sul africana em Angola foi Anthony
Akerman. Fugiu da África do Sul. Teve de se exilar na Holanda para poder
escrever os seus artigos e manifestar as suas opiniões sobre o assunto, porque
“dificilmente isso poderia ser feito no interior da África do Sul”. Anthony
Akerman contou alguns aspectos das histórias que escreveu à agência noticiosa
France Presse.
Paul Morris foi outro sul africano que lutou contra o MPLA. Tinha 18 anos
quando foi recrutado pelo regime do apartheid. Hoje, com 45 anos de idade
afirma publicamente ter lutado do lado errado. “Eu era um adolescente. Não
sabia o que representava lutar. Mas como não tinha muitas opções, alistei-me e
fui”. Adianta que hoje o seu nível emocional é baixo. Sente-se profundamente
triste por ter participado numa guerra sem sentido. Ele pretende re-visitar
Angola brevemente. Quer vêr o nível de crescimento do País e quer voltar “aos
campos de batalha onde lutei”. Planeia viajar por estrada acompanhado dum grupo
de veteranos do Umkhonto weSizwe (MK), que lutaram ao lado do MPLA, naquilo que
ele considera como sendo a sua “jornada de cura”.
Outra experiência que é relatada no documento a que tive acesso é a do coronel
Patrick Ricketts, que se juntou aos MK aos 20 anos e passou oito meses em
campos do ANC em Angola. Ricketts já fez várias visitas a Angola e está neste
momento a trabalhar no sentido de criar um museu e erguer um memorial em Cuito
Cuanavale, local que foi sem dúvida um dos epicentros da guerra. O coronel
Patrick Ricketts considera que “no momento em que decidimos lutar ao lado da
Unita nós estávamos todos separados pela história”. Adianta que eram regidos
por um sistema cruel e por isso mesmo, hoje mais do que nunca, está interessado
em falar sobre essas experiências negativas vividas.
A maior parte dos sul africanos recrutados para lutar contra o MPLA
considera que este é o momento para revelar factos dum periodo traumático e
mostrar ao mundo o lado verdadeiro da história.
Theresa Edlmann, uma pesquisadora da Universidade de Rhodes, sublinha que
aproximar os ex-inimigos é uma forma importante de voltar a analisar o
conflito, porque afinal a Guerra em Angola faz parte da história da África do
Sul. E isto, diz ela, é possível agora, principalmente se essa aproximação
tiver como ponto de partida as bases lançadas por Nelson Mandela no que à reconciliação
diz respeito.
Sem comentários:
Enviar um comentário