quarta-feira, 30 de outubro de 2013

COLOCAR O GUIZO NO GATO.



Há coisas que não consigo perceber e que para mim não tem qualquer explicação. Alguns loctores da Rádio Moçambique, (e não só) “atropelam”  as mais elementares regras gramaticais. Atropelam o português que é a nossa língua oficial. E mesmo assim, ninguém, ao nível da nossa estação pública de radiodifusão, se digna chamar a atenção para os atropelos que estão a ser cometidos. Com a ajuda da minha colega e amiga Luíza Menezes, fui tomando nota, de há uns tempos a esta parte, desse conjunto de irregularidades.

Os locutores fazem questão de nos mantêr informados sobre as horas, o que me parece importante para quem escuta e tem na rádio o seu farol orientador para as tarefas que tem de realizar diariamente. Às vezes pergunto a mim próprio: “que horas são” ? E do meu receptor vem a resposta: “são 9 horas e mais 14 minutos” ou “estamos com 8 horas e mais 45 minutos”. Quem disse que as horas se anunciam assim ? Teimosamente alguns locutores fazem chegar a informação horária ao ouvinte (erradamente) desse modo.  

Felizmente a Rádio proporciona-nos o contacto directo com o ouvinte, o que, diga-se de passagem, é bom. O ouvinte participa, opina, critica. Por vezes, por deficiência de comunicação perde-se o contacto com o ouvinte. E aí, o locutor apressadamente diz que “infelizmente a linha caíu”. Isto para não falar daqueles comunicadores que decidem “abrir as linhas para os ouvintes”. 

Mas há mais. A semana passada, ao sintonizar o Jornal da Manhã da Rádio Moçambique, ouvi uma informação vinda duma capital provincial. O jornalista lia uma notícia que falava de “diarreias, que devem ser combatidas consumindo muitos líquidos”. Com que então “diarreias” ?  Quem escreveu decidiu colocar a diarreia no plural. Quem leu, (se calhar foi a mesma que escreveu) idem. A julgar por esta inovação linguística, não tarda muito e teremos “malárias”, “sidas”, “colesteróis” e por aí fora.

Há locutores que, quando contactam com o ouvinte pelo telefone, pedem para “afinar o seu rádio”. Afinar o rádio não tem nada a vêr com reduzir o volume do rádio, porque afinal é isso que se pretende, por forma a evitar o retorno sonoro que provoca ruídos desagradáveis numa emissão “em directo”. Prova provada de que alguns dos nossos comunicadores não conhecem o “sentido das palavras”, que por sinal foi um programa de referência da Rádio Moçambique.  

Uma outra dum jornalista que fazia a cobertura das celebrações do Primeiro de Maio. “A marcha foi desaguar na Praça da Independência”. Desaguar, tal qual um rio ! A marcha acabou por se transformar em rio. Ao ouvir esta frase fiquei sem saber quem estava a meter água.

No canal desportivo da Rádio Moçambique e particularmente nos relatos desportivos, sou forçado a ouvir frases como esta: “ganhou por uma bola sem concorrência” ou então “empataram a zero golos”.

O desrespeito pelas normas gramaticais básicas leva alguns locutores a dizerem barbaridades como por exemplo: “previna-te das doenças”.

Muitas vezes os nossos comunicadores acabam por lêr como está escrito, o que significa que o nível de atropelo é duplo. De quem escreve e de quem lê.

Por onde anda afinal uma tal comissão de avaliação de qualidade, que segundo sei, existe na Rádio Moçambique ? Existe para quê ?

Lamentavelmente o que se passa na nossa Rádio Pública acontece também nos nossos canais de Televisão e nos jornais. Para mal dos nossos pecados, infelizmente parece-me não haver ninguém interessado em “colocar o guizo no pescoço do gato”.


NAPOLEÃO BONAPARTE ... imperador italiano !



Numa das sessões do Festival de Publicidade realizado em Maio passado e organizado pela Associação Moçambicana das Empresas de Publicidade fui abordado por um jovem que frequenta uma universidade privada moçambicana e onde está a formar-se em Comunicação.

Do seu professor, ele (e mais cinco colegas da mesma turma) recebeu a tarefa de escutar a emissão da Rádio Moçambique, no período das 05.00 às 08.00 horas. Escutar e fazer uma resenha, com algumas notas comentadas sobre o que tinha ouvido para posterior discussão em plenário.

Primeiro grande obstáculo: acordar cedo. Acordou, ligou o rádio, muniu-se duma caneta e dum bloco de apontamentos, e foi ouvindo. Música moçambicana para começar. Muita dessa música, segundo ele me confidenciou “era mais para embalar do que para despertar”.

Depois veio o programa “Uma Data Na História”. Um dos acontecimentos retratados no programa foi algo que tinha a vêr com Napoleão Bonaparte. Foi escutando ao mesmo tempo que tomava algumas notas. De repente ouviu a locutora (era uma senhora que apresentava o texto) dizer “Napoleão Bonaparte o imperador da Itália”. Não quis acreditar no que estava a ouvir. Pensou que ainda estivesse ensonado, de tão cedo ter acordado. Mas não. Ficou pasmado. Quis perguntar se a tal senhora que ele estava a ouvir tinha a certeza do que estava a dizer ? Perguntar ele perguntou, mas do outro lado do receptor não veio resposta nenhuma.

Pegou no seu celular e ligou para um dos colegas do grupo que tinha também a mesma função de ouvir naquela manhã a emissão da RM. O colega confirmou ter ouvido “Napoleão Bonaparte o imperador da Itália”. Para reconfirmar fez um outro telefonema. A mesma resposta dum outro colega seu.

No período da tarde e perante o professor, qualquer dos alunos desse grupo, que tinha como missão ouvir a emissão da Rádio Moçambique no período das 05.00 às 08.00 horas, falou do mesmo assunto. A nossa estação pública de radiodifusão tinha dado um pontapé na história ao afirmar que Napoleão Bonaparte tinha sido um imperador italiano.

Depois de ouvir esta história telefonei a alguns colegas meus para saber se de facto o que o jovem estudante universitário me tinha contado, tinha acontecido. E os meus colegas confirmaram. Aconteceu mesmo.

Afinal de quem é a culpa ?
De quem escreveu o texto do programa “Uma Data na História” e não teve o cuidado de o revêr? De quem eventualmente o corrigiu, se é que alguém se deu ao luxo de fazer isso? Do Director de Programas ?

Este erro, de tamanha monstruosidade, passou por esta cadeia inicial. No acto da gravação passou pelo sonorizador e pela locutora, que são a ponta final do trabalho. Nenhum deles foi capaz de emendar.

Com toda a base de ferramentas que as novas tecnologias de informação nos possibilitam não dá para perceber que nos dias de hoje se cometam erros desta natureza. E ainda por cima na nossa empresa pública de radiodifusão.

Cultura geral, por onde andas ?


QUALIDADE ... PRECISA-SE !



A semana passada a minha crónica foi dedicada aos profissionais que labutam na Rádio Moçambique, e que à estação emissora pública do nosso País dedicam o melhor do seu esforço e saber.  E isto porque a 2 de Outubro de 1975 nascia a Rádio Moçambique.  

Na ocasião referi-me ao início da era Rafael Maguni, um profissional da comunicação com passagem pela Voz da Frelimo, que se transmitia a partir de Dar es Salam e de Lusaka, no período da luta de libertação nacional. Um homem que teve sempre o condão de saber ouvir antes de decidir, coisa que hoje falta a muito boa gente.

Maguni fez-se rodear de profissionais de reconhecida capacidade, que na altura trabalhavam no Rádio
Clube de Moçambique e com quem dialogava permanentemente. Na concepção de Rafael Maguni esta Rádio Moçambique que nascia a 2 de Outubro de 1975, tinha de ser diferente, na forma e no conteúdo, comparativamente com aquilo que eram as emissões da Voz da Frelimo, porque os objectivos dum país independente eram outros. 

Trabalhar com Rafael Maguni foi, para mim e para colegas da minha geração, um momento extremamente gratificante. Bastas vezes, nas múltiplas reuniões de trabalho que realizou, Maguni dizia “eu não sei tudo. Convosco preciso de aprender a fazer rádio”. Um exemplo de humildade. 

Também na crónica da semana passada, se estão lembrados, eu fazia referência a alguns males que ainda perduram. Infelizmente há ainda uma desproporção relativamente ao enorme salto tecnológico dado, comparativamente com aquilo que seria de desejar no campo da produção radiofónica, nomeadamente nas áreas de informação e programas. Aqui há ainda um longo caminho a percorrer.

A propósito da crónica da semana passada, recebi um email da Sra. D. Cecília Massinga, ao que sei leitora assídua do “Correio da Manhã” que pela sua importância e pertinência, transcrevo, com a devida vénia:

Antes de mais, peço perdão pelo atrevimento de tomar seu tão precioso tempo. Não resisti depois de lêr o artigo por si escrito ontem relacionado com a Rádio e seus profissionais. Sempre gostei de rádio, talvez por influência dos meus pais que nos incentivavam a escutar determinados programas didácticos e também a lêr e fazer resumos das leituras feitas.Todos os dias devíamos ler o jornal “Noticias” e resumir para eles pelo menos um artigo. Fico muito infeliz quando ouço algumas pessoas a fazer rádio. Sei que muitos não têm culpa de falar Português, mas há coisas inadmissíveis quando se trata de comunicar com milhões de pessoas. Não posso aceitar que alguém diga “caro” em vez de “carro” e carregue a responsabilidade de passar uma informação que afinal é absorvida até pelas crianças. Vejo-me à nora para explicar à minha filha de dez anos que aquele senhor ou aquela senhora falaram incorrectamente. O pior é quando esses senhores se consideram donos do canal emissor e o usam para passar piadas sem graça e com a agravante de as dizerem tão mal ditas. Tenho me perguntado vezes sem conta se não é possível ensinar aos mais jovens sobre a boa postura numa cabine de rádio? Aulas de dicção entre outras coisas fundamentais para não arrepiar quem ouve do outro lado? Sou sua fã há mais de 30 anos (tenho agora 45 anos de idade) e é sempre um prazer ouvir um programa apresentado por si ou pela Senhora Luiza Menezes, só para citar alguns? Peço perdão uma vez mais por tomar seu tempo, mas não resisti.

Mais comentários para quê ?

2 DE OUTUBRO



A crónica de hoje é dedicada aos profissionais que labutam na Rádio Moçambique, e que à estação emissora pública do nosso País dedicam o melhor do seu esforço e saber.  A 2 de Outubro de 1975 deixava de existir o Rádio Clube de Mocambique, a Rádio Pax e a Emissora do Aero Clube da Beira. Silenciava-se o LM Radio, também conhecido como “estação B”. Nascia a Rádio Moçambique.

Começava a era de Rafael Maguni. Um comando que durou pouco tempo. Por força de outras obrigações, Maguni ficou profundamente envolvido nas conversações de Lancaster House e posteriormente veio a ser nomeado Embaixador de Moçambique no Zimbabwe. Os passos dados para a consolidação da Rádio Moçambique foram obra de Rafael Maguni, que, entre outros predicados que o caracterizavam, teve sempre o condão de saber ouvir antes de decidir, coisa que hoje falta a muito boa gente.

Esses, para mim e para colegas da minha geração, foram momentos gratificantes. As bases lançadas naquela altura permite dizer, quer queiramos quer não, que a RM é, e acredito que vai continuar a ser por mais algum tempo, a prioridade no conjunto de todos os meios de comunicação social existentes no País.

Lamentavelmente há ainda uma desproporção relativamente ao enorme salto tecnológico dado, comparativamente com aquilo que seria de desejar no campo da produção radiofónica, nomeadamente nas áreas de informação e programas. Aqui há ainda um longo caminho a percorrer. E é neste pormenor que me quero deter, deixando expresso o meu sentimento sobre uma matéria que considero prioritária.

Há quem não perceba que a Rádio é algo mais que um simples meio de comunicação. É também um meio de expressão, e como tal, uma arte. A Rádio tem portanto os seus artistas, sejam eles bons ou maus. Acontece que não é artista quem quer mas só aqueles que têm vocação e talento radiofónicos. Na rádio de hoje em Moçambique, seja ela pública ou privada, (salvo raríssimas excepções) precisam-se profissionais com vocação e talento nato, aperfeiçoado por anos de estudo, experiência e perseverança. Quem não tiver vocação e talento, não pode ser artista da Rádio.

Como se compreende que toda a gente se julgue apta a produzir ou a falar ao microfone ? 

Hoje, só gente com a antiquada concepção de que Rádio não é uma arte perfeitamente diferenciada, é que aceita e tolera a participação no trabalho radiofónico dos que não tem vocação para ela. Não basta o desejo. É preciso talento, imaginação criadora e alma de artista radiofónico. 

Os artistas (pelo menos os bons) não se encontram aos pontapés. Os outros, medíocres ou maus, alguns deles formados nas nossas Universidades e carregando consigo o pomposo “dr” nas costas, podemos encontrar em qualquer canto deste País. E são estes, de conluio com quem tem poder de decisão, que “assaltam” os estúdios das emissoras e praticam toda a sorte de tropelias e barbaridades que começam na incorrecta utilização da língua portuguesa, afinal a língua de unidade nacional deste País, e que acabam por desaguar em outros males que passam pela leitura, realização, sonorização e montagem ou pela publicidade enganosa. Mais grave é quando este tipo de atropelos acontece na nossa Rádio Pública.

Muita gente esquece-se que a rádio não é um tribunal, nem uma Assembleia. A rádio é a Rádio, tal como um dia disse o Dr. Adrião Rodrigues, que em 1974 foi membro da Comissão Directiva do
Rádio Clube de Moçambique. “Na Rádio nós arrumamos os factos. Mantemos as pessoas bem informadas. Damos voz à opinião pública. Formamos pessoas. Mas formar pessoas é, sobretudo, não arregimentá-las. É criar-lhes o sagrado hábito de pensar”.

Mas como isto na maior parte dos casos não acontece, somos obrigados a ouvir, como aconteceu num programa “Uma Data na História” da Rádio Moçambique, que “Napoleão Bonaparte é um imperador italiano”. Esta é uma história que fica para uma próxima oportunidade.
 
Infelizmente a Rádio hoje (pública e/ou privada), salvo raríssimas excepções, continua a ser como há tempos definiu o Luis Bernardo Honwana “uma rádio cinzenta”, ou como recentemente me disse o meu amigo e colega de longa data António Luis Rafael “uma mistela sem gosto”.